Quando eu morava naquela vila muitas pessoas vinham ao meu bar todos os dias, o único das redondezas. Homens solteiros, divorciados, cornos, veteranos, prostitutas, assassinos, sequestradores, vagabundos, trabalhadores, jovens, jogadores de pôquer, procurando por diversão ou não procurando coisa alguma, todo o tipo de gente aparecia por lá, o que me surpreende até hoje o fato do lugar ter sido cenário de dois ou três brigas hoje.
Haviam quatro amigos que sempre estavam alí.
Não importa qual fosse o dia, religiosamente, eles apareciam por aquela porta pra beber, assisitir aos jogos na televisão ou simplesmente pela honra ao cotidiano.
Nunca entravam sozinhos ou desfalcados, ou estavam os quatro ou ninguém estava e, não importava qual mesa pegassem (muitas vezes até ficavam em pé), eles conversavam e riam como se aquele momento fosse o último de suas vidas.
Os assuntos e a cerveja eram sempre os mesmos, embora cada conversa parecesse mais interessante a cada dia que passava.
Muitas vezes puxavam algum assunto comigo e com os cavalheiros ao redor e todos pareciam se conhecer desde o dia de seus nascimentos.
Seus times eram tão iguais quanto as cores em suas peles: o time do branquinho estava em pé de guerra com o do japonês na segunda divisão, enquanto que o negro apostava alto que seu time ia vencer a final contra o desfalcado do alemão.
Diferente por fora, mas todos nós os viamos como uma só pessoa.
Seus olhos brilhavam juntos e refletiam uns aos outros.
Quando um se apertava num sorriso, todos os outros faziam a mesma coisa e quando um lacrimejava, molhava todos os demais.
Nunca brigavam, por mais que dividissem as mesmas namoradas, estas eles sempre esqueciam depois de um tempo, outras acabavam chegando e os quatro garotos continuavam os mesmos.
Por muitos anos eles ficaram por lá, assim como muitos dos meus clientes.
Todos conversavam e riam e choravam, juntos, como bons amigos.
Um círculo de amizades que nada poderia romper.
Nos últimos anos em que permanecemos abertos, os garotos (agora não mais tão garotos) não estavam com a mesma aparência de sempre.
Algo acontecia com um deles.
Me contaram que ele tinha alguma espécia de doença, um vírus ou alguma coisa desse tipo. Se você acha que isto fez com que eles perdessem a esperança, vocês estão enganados, risadas e sorrisos era o que não faltava entre aqueles quatro.
Os mesmos assuntos, a mesma cerveja, os mesmos times, as mesmas namoradas, porém, como se cada dia fosse uma conversa cada vez mais interessante.
E foi assim, até o dia em que nenhum dos três apareceu lá outra vez.
Passou uma semana, duas, três, um mês, um ano e nada daqueles meninos, até que desistimos de esperar e encarar a realidade como esta se mostrava.
Eles nunca entravam sozinhos ou desfalcados, ou estavam os quatro ou ninguém estava.
Se não fossem por eles, talvez este bar já estivesse, há muito, fechado.
Eles deram para aqueles homens o que muitos desconheciam ou tinham medo de procurar.
Eles nos deram as conversas, as risadas, as piadas e o companheirismo de todos os dias.
Aquela amizade nos deu forças a continuar.
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gostei, mesmo!
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